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A IGREJA DA MEIA-NOITE 08/10/2018 - 18:46
A Igreja da Meia-noite

Recentemente fui a uma igreja singular que consegue atrair milhões de membros devotos todas as semanas sem ter sede denominacional nem funcionários contratados. O nome é Alcoólicos Anônimos. Fui a convite de um amigo que me confessara, pouco tempo antes, seu problema com a bebida.

Ele me disse:
- Venha comigo, e verá uma amostra de como deve ter sido a Igreja primitiva.
À meia-noite de uma segunda-feira, entrei em uma casa caindo aos pedaços, que já abrigara seis sessões naquele dia. Nuvens de fumaça de cigarro pairavam no ar como gás lacrimogêneo. Não passou muito tempo antes que eu percebesse o que meu amigo queria dizer com sua alusão à Igreja primitiva. Um político muito conhecido e vários milionários proeminentes se misturavam com desempregados desanimados e garotos que colocavam band-aids nos braços para esconder as marcas das agulhas.

O “momento de compartilhar” foi semelhante às descrições de terapia ideais que encontramos nos livros de cursos de psicologia. As pessoas ouviam em compaixão, respondiam com ardor e abraçavam-se ao final. As apresentações eram mais ou menos assim:
- Oi, sou Tom, e sou dependente de álcool e drogas.

Imediatamente todos gritavam em uníssono, como um coral do teatro grego:
- Oi Tom!

Cada participante da reunião deu o relatório de seu progresso pessoal na batalha contra a dependência. Cartazes com frases simpáticas – “Um dia de cada vez”, “Você consegue”- enfeitavam as paredes desbotadas da sala. Meu amigo acredita que esses arcaísmos revelam outra semelhança com a Igreja primitiva. A maior parte da sabedoria de A.A. é passada de uma pessoa para a outra pela tradição oral, que vem desde a fundação da entidade, há mais de sessenta anos. Ninguém usa muito as publicações atualizadas de A.A. e nem seus artigos de relações públicas. Em vez disso, confiam principalmente em um velho livro embolorado com o título prosaico: Alcoólicos Anônimos, conhecido como O Livro Grande, que conta a historia dos primeiros membros, em um estilo pomposo, parecido com o da Bíblia.

A.A. não possui qualquer propriedade, não tem uma sede com luxos como mala direta e centro de mídia, não há uma equipe de consultores bem pagos nem conselheiros de investimentos a cruzar o país de avião. Os fundadores do movimento estabeleceram garantias que acabariam com qualquer iniciativa para implantar a burocracia. Acreditavam em que o programa só teria sucesso se permanecesse no nível mais básico e intimo: um alcoólico dedicando sua vida a ajudar outro. Mesmo assim A.A. mostrou-se tão eficaz que mais de 250 organizações, de Chocólatras Anônimos a grupos de pacientes com câncer, surgiram como uma imitação consciente de sua técnica.

Os muitos paralelos com a Igreja primitiva não são meras coincidências históricas. Os fundadores cristãos insistiram em que a dependência de Deus deveria ser uma parte obrigatória do programa. Na noite em que participei da reunião, todos na sala repetiram em voz alta os doze princípios, que reconhecem total dependência de Deus para perdão e força (os membros mais agnósticos podem substituir pelo eufemismo “Poder Superior”, mas depois de algum tempo isso começa a soar tão vazio que eles geralmente acabam passando para Deus). Durante os momentos de compartilhamento, algumas pessoas usaram o nome de Deus em uma série de profanidades e na sentença seguinte agradeciam a Ele por ajudá-las a atravessar mais uma semana.

Meu amigo admite abertamente que A.A. tomou o lugar da igreja na vida dele, e isso às vezes o perturba. Ele denomina a situação de “a questão Cristológica” de A.A. E diz:
- A.A. não adota uma teologia da qual possa falar. Raramente se menciona Cristo. Os grupos tomaram emprestada a sociologia da igreja, bem como algumas das palavras e dos conceitos, mas não há doutrina subjacente. Sinto falta das doutrinas, mas em primeiro lugar estou tentando sobreviver e A.A. me ajuda muito mais nesta luta do que qualquer igreja local.

A igreja – e é possível avistar muitas torres através das janelas do prédio onde o grupo de A.A. se reúne – parece irrelevante, enfadonha e sem substancia para meu amigo. Outros no grupo explicam sua resistência à igreja relatando historias de rejeição, julgamento e sentimento de culpa. Uma igreja local é o ultimo lugar em que se levantariam para declarar que são alcoólicos ou dependentes de drogas. Ninguém os saudaria com alegria, como nas reuniões de A.A.
Meu amigo acredita que um dia acabará voltando para a igreja, já que não abandonou sua fé. Ele afirma que, na verdade, o envolvimento em A.A. o ajudou a solucionar alguns dos paradoxos mais difíceis do cristianismo. Tomemos como exemplo o debate livre-arbítrio/determinismo: como alguém pode aceitar toda a responsabilidade por suas ações, quando sabe que os antecedentes familiares, desequilíbrios hormonais e as forcas sobrenaturais do mal contribuíram para seu comportamento? Uma das personagens de William Faulkner expressou-se assim:
- Não vou fazer. Mas não consigo evitar.

A.A. é bem menos ambíguo: todo participante tem que reconhecer a responsabilidade total e completa por todo seu comportamento, até mesmo pelo que acontece durante um estupor alcoólico ou um blackout (apagamento – uma espécie de limbo, no qual o alcoólico continua a agir, mas com amnésia, sem percepção consciente). É proibido racionalizar.
Meu amigo prossegue:
- A.A. me ajudou também a aceitar a noção do pecado original. Na verdade, embora muitos cristãos desprezem esta doutrina, o pecado original combina perfeitamente com as pessoas que freqüentam A.A. Expressamos esta verdade cada vez que nos apresentamos, dizendo que somos alcoólicos. Ninguém se esquiva dizendo que era alcoólico.

Para este meu amigo, a imersão em Alcoólicos Anônimos significou encontrar a salvação em seu sentido mais literal. Sabe que uma escorregadela poderia causar, ou melhor, causaria com certeza sua morte prematura. Mais de uma vez o companheiro dele dentro de A.A. atendeu seus chamados às quatro horas da madrugada, indo encontrá-lo encurvado em um restaurante escuro, escrevendo vezes sem conta em um caderno, como um garoto sendo castigado na escola: “Deus, ajuda-me atravessar os próximos cinco minutos”. Hoje ele aproxima-se de seu quinto aniversario de sobriedade, um marco importante segundo a avaliação de A.A. E mesmo assim sabe que 50% das pessoas que vencem esta etapa acabam caindo de novo.

Sai impressionado da “igreja da meia-noite”, mas ainda me perguntando por que A.A. atende determinadas necessidades que a igreja local não consegue atender, ou pelo menos não conseguiu, no caso de meu amigo. Pedi-lhe que apontasse a qualidade mais importante ausente na igreja e presente em A.A. Ele olhou para sua xícara de café por um longo tempo, parecia estar assistindo ao liquido resfriar. Esperei ouvir uma palavra como amor, aceitação ou, por conhecê-lo bem, talvez a ausência de institucionalismo. Em lugar disso, ele disse, bem baixo, uma única palavra: dependência.

E explicou:
- Nenhum de nós é capaz de prosseguir sozinho, e não foi para isso que o Jesus veio? Ainda assim, a maioria das pessoas na igreja apresenta um ar de satisfação consigo mesmas, com piedade ou superioridade. Não sinto que, conscientemente, elas se apóiam em Deus ou umas nas outras. Parece que a vida delas está em ordem. Um alcoólico se sente inferior e incompleto na igreja.
Ficou em silêncio um pouco, até que um sorriso apareceu em seu rosto.

E concluiu dizendo:
- É engraçado. O que mais odeio em mim, meu alcoolismo, é exatamente o que Deus usou para me trazer de volta até Ele. Por ser alcoólico sei que não consigo sobreviver sem Deus. Talvez seja este o valor redentor dos alcoólicos. Talvez Deus nos esteja chamando a ensinar aos santos o que significa depender d’Ele e de Sua comunidade na Terra.

O autor: Philip Yancey nasceu em Atlanta, EUA em 1949. Jornalista, escritor e pensador cristão, é editor associado da revista Christianity Today (Cristianismo Hoje). A trabalho ou a passeio, Yancey, esteve por várias vezes no Brasil, onde seus escritos são uma referência para diversos setores cristãos. Este artigo foi subtraído de seu livro mais conhecido, “Perguntas que Precisam de Respostas” e, junto com outros livros de sua autoria, Alma sobrevivente; Decepcionado com Deus; Desventuras da vida cristã (com Tim Stafford) e A dádiva da dor (com o Dr. Paul Brand) são publicados no Brasil pela Editora Mundo Cristão www.mundocristao.com.br