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QUANDO UMA CULTURA RESTRINGE O ACESSO DAS MULHERES A AA. 27/09/2016 - 21:19
QUANDO UMA CULTURA RESTRINGE O ACESSO DAS MULHERES A AA.
Maria D. P. C. – Chile
Olá, meu nome é Maria Del Pilar Correa. Sou Custódia classe A e presidente da Junta de Serviços Gerais do Chile. É uma grande honra para mim e um privilégio representar as mulheres de AA. Do meu país em um tema tão importante como este.
Integro a Irmandade há aproximadamente 7 anos. Como profissional psicóloga tenho experiência “de segunda mão “com adições”. Não quis fazer essa apresentação desde o âmbito profissional, mas sim desde a vivência que somente uma alcoólica tem com a doença. Para isso, nos reunimos com mulheres Aas de vários setores educacionais, sociais ocupacionais em Santiago do Chile e quero apresentar seus depoimentos sobre as restrições provenientes de uma cultura latina, machista, sexista e classista como a nossa.

Desde o início da história as mulheres têm tido um papel importante em nossa sociedade, nossas forças e ternura nos tem provido das ferramentas necessárias para apoiar o desenvolvimento de estrutura fundamental: A família, portanto das sociedades contudo, também temos encontrado muitas dificuldades em temas sensíveis como é, neste caso, o alcoolismo.
Uma companheira alcoólica, muito motivada com o tema, investigou que segundo estatísticas Britânicas, de cada 10 homens que pedem ajuda 8 vão acompanhados de suas esposas. De cada 10 mulheres, somente 3 vão com sua mãe ou irmã, nenhuma com marido. A partir deste estudo não é difícil darmos conta que um fator comum nas mulheres para enfrentar esta doença é a solidão. Chegamos sozinhas pela rejeição dos que convivem conosco e o estigma da mulher bêbada pelo machismo. Além disso, geralmente as mulheres consomem álcool sozinhas, sentem temor e se felicitam porque “ninguém nos viu ébria”.

Em relação à família, a rejeição dos filhos é maior para a mãe. Isso aumenta a culpa, o isolamento e a falta de ação. Em nossa cultura, os pais são mais ausentes, ainda quando a mulher hoje tem um papel muito ativo no campo de trabalho. E profissional. Para os filhos, se perde uma pessoa que traz estabilidade no lar e cuidados, desta forma aumenta a rejeição à mãe alcoólica. Porque somos as que protegemos e confortamos. Dada essa condição e de alguma forma para acalmar a culpa, as mães se tornam permissivas e tendem a isolar-se por vergonha. Quando se liberam deste sentimento com o programa, conseguem ter uma segunda vida em AA.

E o fazem com liberdade, recuperando pouco a pouco suas confianças e afetos. Agora seus filhos dizem: “nos davam mais vergonha ver vocês embriagadas do que participando de AA. “ Desta forma, vemos que para elas agora AA. É seu trabalho e seu objetivo e trabalhar para que mais filhos possam ter uma mãe sóbria.
Também a mulher se sente sobrecarregada por seu próprio gênero: nos destruímos com a competição com o masculino. “Queremos ser homens com seios, nos masculinizamos”. As mulheres exigem a outras serem perfeitas para pertencer; em AA. Há mais críticas para a mulher. Por exemplo: “não vim a reunião, irão me registrar”. A autocrítica é muito dura e o nível de tolerância da mulher à culpa é mais alto que no homem. Uma “menina superpoderosa” ou a supermulher como eu não entra em AA., é uma debilidade. “Só por hoje” se opõe as nossas preocupações e super. exigências.

Outro indicador da restrição cultural para a mulher em AA. Seria os múltiplos papéis que devem cumprir. As companheiras descrevem uma imagem de si mesma com figura de papel dobrado como sanfona. Está por descobrir-se ou contextualizar-se cada uma sua própria história nesta cultura. “Os homens esperam de você que seja infalível”. Se esconde o consumo, as emoções e solidão. Se experimenta a desilusão com a vida, que não tem sentido entre tantas responsabilidades. “Somos responsáveis por tudo e tudo fazemos mal. É o lema da sociedade machista. E, se o expressa, é vítima”.

Outro fator restritivo é a dependência a sua obrigações: “tinha que pedir tempo e dinheiro a minha família, sendo dona de casa”.; isso gera culpa e perfeccionismo. As reuniões são questionadas por meu companheiro e meus filhos, argumentando que estou “ausente”. Ainda que, quando bebia estava sempre ausente – inconsciente.

Muitas vezes vemos também como limitante o “classismo”. Não quero andar com “ébrios de classe baixa”. Não querem ir porque podiam destruir a imagem que se havia criado perante a sociedade. As criaram acreditando e – ou dizendo que eram diferentes: “tu de grande vai se apequenar, a gente pobre te vai saudar e te envergonharás”.
O classismo as fazem alija-se e não pertencer a nada desde pequena. Agora AA. lhes pertence e necessitam pertencer. Agora A. A. é um lar.

Chile ainda é um país conservador e classista, onde o alcoolismo nas classes socioeconômica alta se oculta e em geral se associa a situação de rua. A religiosidade escrita e o conservadorismo são fatores que geram nelas os conceitos de “Deus – castigador”, sendo difícil aceitar a nossa premissa de “somente pela graça de Deus”.
O sexíssimo também bate forte na Irmandade. “Lá dentro os homens te olham como carentes de afeto, o homem erotiza”. Os homens não entendem a proposta de afeto. As mulheres são vulneráveis e compassivas”, há co- dependência. “Eu queria controlar através do sexo”. E também, podemos ser culpadas de uma recaída porque “temos uma garrafa entre as pernas” (Dr. Bob).

O serviço na estrutura também se vê restringido ao sexo feminino já que desde meninas, provavelmente pelo machismo, se incentivam as habilidades” menores” e os meninos o de prover bens materiais. Portanto, existe uma desconfiança da capacidade da mulher em atividades gerenciais. E nos encontramos com os seguintes obstáculos relacionados pelas mesmas mulheres: “Entrando no serviço me disseram que fosse secretária” Tudo muito sutil. “Nós estamos imersas e seguimos alimentando o machismo. Se estudo e me preparo para coordenar dizem que sou soberba”.

O alcoolismo sem dúvida é um só, porém quando falamos de mulheres as qualidade são diferentes, as motivações também. E as restrições são muitas, porém de algo estamos seguras: AA. existe e existe para homens e mulheres, estamos levando a mensagem e dia a dia estamos dispostas a compartilhar nossa recuperação e citando Bill “Decidimos estar dispostas e nunca havíamos tomado uma decisão melhor” (Grapevine, novembro 1960). E nossas mulheres chilenas assim entendem.

Concluindo, quero mencionar que as mulheres que têm encontrado ajuda mesmo sob estas restrições culturais, devem atender cuidadosamente a quem busca ajuda for e dentro dos grupos de AA. Sempre mostrando-lhes sua experiência e quem sabe converter em suas madrinhas conselheiras, conseguindo dessa forma que consigam as mudanças que se requerem em AA. mostrando o nosso exemplo para a sociedade gerar as modificações requeridas e liberaremos das restrições, daríamos abertura ao cumprimento de nossa terceira tradição.

(Fonte: Relatório Anual de Alcoólicos Anônimos do Brasil – XXXIX Conferência de Serviços Gerais – Páginas: 165 – 166 e 167)